sexta-feira, 22 de abril de 2011

Barroco - Gregório de Matos

A Cristo S. N. crucificado estando o poeta na última hora de sua vida 


Meu Deus, que estais pendente de uma madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso cordeiro.

Mui grande é vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.



[Poeta brasileiro, um dos melhores representantes do Barroco português]

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ruy Cinatti (1915-1986)

Entrei pelo mar
Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.

****

Quem não me deu Amor não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.
Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas...
Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.
Quem não me deu Amor não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.

E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

domingo, 10 de abril de 2011

Raul de Carvalho (1920 - 1984)

CEREJAS BRANCAS

De cerejas brancas, de estrelas vermelhas de lábios azuis,
Era a tua voz. Doce, docemente. Inocentemente.
Dizia palavras, dizia palavras... Alucinações.
Monstros e promessas. Magia, segredo. Artes do Diabo.

Reflexos tristes da luz que nos foge,
da luz que anda à solta e nos deixa presos.

Ouço a tua voz chamando, chamando...
Ah! nenhum de nós somos os culpados!

Docemente extinta. Inocentemente.
Um círculo da Lua rodeia teus braços,
Um raio de Sol te dirige os passos.
É a tua voz! de menino e moço!

Ah! quanta ternura tem a tua voz,
Quanto beijo que jamais fora dado,
Quanta linda festa que logo interrompida,
Quanto abraço que desejaste dar ...

Ouço a tua voz. É som ou desmaio?
É quebranto? É música? Sai do coração?
Ouço a tua voz, que respeita e ama,
Como irmão mais novo a irmão mais velho.

Diz-me que é inútil. Que essa tua voz
Não é verdadeira, porque sofrerás...
Embora me tragas, sem eu saber como,
Alguma alegria, um pouco de paz!

Queira Deus que tu, irmão meu, encontres
Alguém que ao ouvi-la, quando estiveres só,
Te ame e compreenda, te ouça e adormeça,
Te afirme que tens um lugar no Mundo...


****

CORAÇÃO SEM IMAGENS


Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Farsa de Inês Pereira - esquema



[Esquema retirado do livro de apoio ao manual "Aula Viva" - Literatura Portuguesa, de João Guerra e José Vieira, Porto Editora]

Farsa de Inês Pereira (1)

Caracterização de personagens

Inês
Pero Marques
Escudeiro
Mãe
Lianor Vaz
impaciente
vivaça
crítica

trocista
irónica
revoltada
preguiçosa
leviana
alegre
namoradeira
vaidosa
infiel
dissimulada
vingativa
soberba
resmungona
sabida
fingida
teimosa
insensata
desencantada
recalcada
romanesca
touca
véus
formosa
lavrador
capelo
gibão
gabão azul
perlas
peias
novelo
chocalhos
pente
ignorante
submisso
rude
persistente
deselegante
discreto
respeitador
honesto
leal
generoso
ingénuo
trabalhador
crédulo
obediente
sincero

petulante
afidalgado
falador
viola
artificioso
galante
elogioso
irónico
mentiroso
desleal
poltrão
preguiçoso
perverso
esperto
cauteloso
calculista
caloteiro
tangedor
ambicioso
gabarola
vaidoso
cantador
impertinente
soberbo
hipócrita
gracejador
simples
humilde
rude
proverbial
vulgar
conselheira
amiga
sincera
ajuizada
resmungona
conformista
honesta

camisa
rouca
catarro
tosse
unhas cortadas
coxa
descontrolada
cansada
amiga
confidente
conselheira
desinteressada
persistente
cómica
ajuizada
honesta
medrosa
casamenteira
sincera
Latão e Vidal
confusos
atabalhoados
convincentes
serviçais
críticos
interesseiros
casamenteiros
desonestos
atarantados
mentirosos
fingidos
argutos
artificiosos

segunda-feira, 28 de março de 2011

Gil Vicente

[farsa_ines_pereira.jpg]

[Para saberes mais sobre esta obra de Gil Vicente consulta este endereço electrónico - ou então este. Ficarás a conhecer o essencial; depois deves alargar um pouco mais os teus conhecimentos.]

domingo, 27 de março de 2011

Mário Cesariny de Vasconcelos

Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

*****

Faz-me o favor
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.