CEREJAS BRANCAS
De cerejas brancas, de estrelas vermelhas de lábios azuis,
Era a tua voz. Doce, docemente. Inocentemente.
Dizia palavras, dizia palavras... Alucinações.
Monstros e promessas. Magia, segredo. Artes do Diabo.
Reflexos tristes da luz que nos foge,
da luz que anda à solta e nos deixa presos.
Ouço a tua voz chamando, chamando...
Ah! nenhum de nós somos os culpados!
Docemente extinta. Inocentemente.
Um círculo da Lua rodeia teus braços,
Um raio de Sol te dirige os passos.
É a tua voz! de menino e moço!
Ah! quanta ternura tem a tua voz,
Quanto beijo que jamais fora dado,
Quanta linda festa que logo interrompida,
Quanto abraço que desejaste dar ...
Ouço a tua voz. É som ou desmaio?
É quebranto? É música? Sai do coração?
Ouço a tua voz, que respeita e ama,
Como irmão mais novo a irmão mais velho.
Diz-me que é inútil. Que essa tua voz
Não é verdadeira, porque sofrerás...
Embora me tragas, sem eu saber como,
Alguma alegria, um pouco de paz!
Queira Deus que tu, irmão meu, encontres
Alguém que ao ouvi-la, quando estiveres só,
Te ame e compreenda, te ouça e adormeça,
Te afirme que tens um lugar no Mundo...
****
CORAÇÃO SEM IMAGENS
Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
domingo, 10 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
Farsa de Inês Pereira - esquema
[Esquema retirado do livro de apoio ao manual "Aula Viva" - Literatura Portuguesa, de João Guerra e José Vieira, Porto Editora]
Farsa de Inês Pereira (1)
Caracterização de personagens
Inês | Pero Marques | Escudeiro | Mãe | Lianor Vaz |
impaciente vivaça crítica trocista irónica revoltada preguiçosa leviana alegre namoradeira vaidosa infiel dissimulada vingativa soberba resmungona sabida fingida teimosa insensata desencantada recalcada romanesca touca véus formosa | lavrador capelo gibão gabão azul perlas peias novelo chocalhos pente ignorante submisso rude persistente deselegante discreto respeitador honesto leal generoso ingénuo trabalhador crédulo obediente sincero | petulante afidalgado falador viola artificioso galante elogioso irónico mentiroso desleal poltrão preguiçoso perverso esperto cauteloso calculista caloteiro tangedor ambicioso gabarola vaidoso cantador impertinente soberbo hipócrita gracejador | simples humilde rude proverbial vulgar conselheira amiga sincera ajuizada resmungona conformista honesta | camisa rouca catarro tosse unhas cortadas coxa descontrolada cansada amiga confidente conselheira desinteressada persistente cómica ajuizada honesta medrosa casamenteira sincera |
Latão e Vidal | ||||
confusos atabalhoados convincentes serviçais críticos interesseiros casamenteiros desonestos atarantados mentirosos fingidos argutos artificiosos |
segunda-feira, 28 de março de 2011
domingo, 27 de março de 2011
Mário Cesariny de Vasconcelos
Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
*****
Faz-me o favor
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
*****
Faz-me o favor
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
terça-feira, 15 de março de 2011
domingo, 6 de março de 2011
Amor é ...
Amor é estar longe, estando perto,
É um raio de luz na escuridão
É o perdermo-nos sós num deserto
É um quente ardor no coração
É a paixão que enche de ilusão
É felicidade em felicidade
É todas as coisas num só momento
É um doce de amargo sabor
É o que aquece o nosso coração
É um ardente verão bem fresquinho
É um desejo nunca desejado
É a contemplação do outro ser
É o que mais tarde nos matará
É algo sem concreta definição
( Joana Ribeiro, nº 12)
Amor é estar longe, estando perto,
É um desejo nunca desejado
É o perdermo-nos sós num deserto
É um sabor nunca experimentado
É felicidade em felicidade
É um quente ardor no coração
É a contemplação do outro ser
É o que aquece o nosso coração
É a paixão que enche de ilusão
É um raio de luz na escuridão
É algo sem concreta definição
É um ardente verão bem fresquinho
É todas as coisas num só momento
É o que mais tarde nos matará.
(Raquel Sampaio, nº19)
[Depois de um exercício de escrita colectiva, estas foram as versões mais votadas. Dois sonetos um clássico e outro à maneira de Shakespear.]
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